
Poderosas, como alguém as definiu logo na primeira noite.
As Poderosas e a Fátima Felgueiras, como um amigo meu lhe chamou mesmo desconhecendo a brincadeira que dera origem ao nome...
As personagens, para além das pessoas que as vestiram em palco durante estes nove dias, criaram empatias com o público.
Encantaram e divertiram.
E eu sei, porque me foi dado o privilégio de ser actor e espectador, que expressões, que falas, que movimentos ficaram como os mais populares entre o público.
A cara absolutamente insana da Natalie quando exclamava podes olhar, se quiseres;
a coreografia do Nuno, verdadeiramente descontrolada; a luta pelos copos que a Teresa travava com toda a gente no seu grupo; as galinhas da Carla; o klapsbazen da Aileen; o sabia que não eram de confiança da Leonor.

O sinistros da Milene; o sossegados da Arminda; os arrepios na espinha da Silvia; o só de pensar nisso do Gonçalo; os patifes da Sara.
Do alto do meu cubo, sentado nos meus degraus, vi tanta coisa maravilhosa. Como naquele dia em que a Leonor não conseguia pegar na ponta da fita métrica. Como quando a Teresa me fez um gesto feio deitada no chão. Quando o Nuno coçou a canela pela primeira vez. O desenvolvimento de uma paixão dividida por um muro mas unida por uma flor.
Foram momentos mágicos, emocionantes e que me emocionaram diversas vezes. Tantas vezes tive de conter a gargalhada. Tantas vezes senti o nó na garganta, orgulhoso de vocês. E Silvia, os arrepios na espinha são mesmo verdade... 
Foi tão bom partilhar o camarim convosco. Ouvir as vossas gargalhadas, sentir o vosso entusiasmo. Quem me faz o nariz?, quem me empresta base?.
Sossegadinho no meu espelho, ouvia-vos e sentia-vos bem de perto, e mesmo sem nunca vos ter dito, a verdade é que vocês, as vossas personagens e as vossas memórias se entranharam em mim.



E é nestas alturas que desejava ser a minha memória uma máquina de filmar, e poder assim registar estes quatros meses - que me parecem agora ter sido apenas quatro horas. Gravar todos os minutos, os bons e os maus, todas as conversas, todas as risadas, as lágrimas também. Poder mostrar-vos a toda a gente, poder contar como foi exactamente. Como eram os minutos passados no 77 antes do início de cada aula. Como eram os intervalos para cigarrinho. Como os olás passaram a ser cada vez mais confortáveis e os até amanhãs cada vez mais difíceis.

E agora, ainda mais difícil.
Hoje, tão difícil
Queria registar a noite de hoje como vocês merecem. Uma homenagem a estes quatro meses, a este espectáculo, a este grupo de amigos, ao amor que nutro por vocês todos.
Registar a emoção que nos vai acompanhar naquele palco.
Hoje, mais do que nunca. O que vai acontecer quando sairmos para agradecer ao público o aplauso que nos acaricia. Como vai ser a última noite no camarim, a última vez que retiramos a pinta vermelha da pontinha dos nossos narizes, a última vez...
E tenho a certeza de que não o vou conseguir fazer como vocês realmente mereciam.
Como um Registador devia registar.

O Registador